Este artigo poderia ser resumido a apenas uma linha: o não pagamento dos Precatórios – vergonha nacional; ou, reduzido apenas ao seu título. Mas não vou ser tão breve. Assim, poderei mostrar a gravidade do fato e a minha indignação.Como se sabe, precatórios são ordens de pagamento contra a União Federal, os estados ou os municípios, originadas a partir de decisões judiciais das quais não cabe mais recurso. Quem ganhou uma ação na Justiça contra um estado ou município entra em uma fila para receber o que lhe é devido. É coisa muito séria em países sérios (aqueles que, no exercício de sua soberania criam as leis e se submetem a elas), os chamados Estados Democráticos de Direito, como dizem que o Brasil é.
Um crédito contra um estado ou município é, na teoria, mais garantido do que contra uma empresa. Além de ser irreversível (“coisa julgada”), o devedor tem dinheiro para pagar, a Constituição estabelece uma ordem para não demorar o pagamento e se o estado ou município não pagar, pode sofrer intervenção (federal ou estadual, sendo o governador ou prefeito afastado do cargo).
O problema é que o brasileiro avacalha tudo: estados e municípios dizem que não têm dinheiro, os Tribunais não têm coragem jurídica e política para determinar intervenção, a Constituição é desrespeitada e não dá em nada! O total de dívidas dos municípios e estados já está próximo de R$ 70 bilhões! Muitos credores envelhecem, morrem e não recebem. Com que palavras uma pessoa idosa e necessitada deve classificar isso?... Fosse eu o juiz a ouvir a queixa, me sentiria envergonhado em pertencer ao Poder Judiciário e provavelmente faria coro ao mais cabeludo palavrão com que ela classificasse as autoridades responsáveis. Como é triste não se ter ética na política, nos atos do governo, não se valorizar as instituições e se viver num país em que o Direito não é respeitado...
Por conta de toda essa avacalhação e desrespeito, já há todo um comércio, a explorar os pobres necessitados; precatórios são comercializados por preços muito menores, obrigados que são os credores ante o risco de morrerem e não receberem. Que mãe “gentil”, és tu, Brasil?... Ou melhor (ou melhor não, ou pior) que espécie de gente são os “nossos” homens públicos?
Há alguma esperança de melhora? Não. Está na Câmara uma proposta que piora ainda mais a situação dos que têm precatório a receber. O prazo para pagamento, que os deputados e senadores que redigiram a Constituição de 1988 deram para pagamento (já violando o direito dos credores e passando a mão na cabeça dos dirigentes estaduais e municipais), foi de oito anos; em 2000, uma Emenda Constitucional deu mais dez anos; agora, nova Proposta de Emenda Constitucional altera a ordem cronológica, permite se fazer leilão e aumenta ainda mais os prazos: vinte, trinta, quarenta anos, e não prevê punição para os que não pagarem!...
Parece brincadeira. Aliás, deve ser “brincadeira” mesmo. Daquelas do tipo de jogar álcool em quem está dormindo e atear fogo “só pra dar um susto”...
No entanto, se fôssemos um país com dirigentes éticos e responsáveis, o problema não teria alcançado esse volume. Bastaria o Presidente da República pagar os precatórios dos estados e municípios com verba do Tesouro Nacional e debitar aos mesmos, abatendo nos repasses ou créditos desses para com a União. O Supremo Tribunal Federal também já poderia ter determinado intervenção e não teríamos chegado a esse ponto. Faltou coragem, vontade política. Agora, o Congresso quer adotar medidas que considero inclassificáveis, que só podem ser originadas na mente de quem não tem ética nem e não respeita o Direito. Aliás, a Proposta de Emenda Constitucional que arrepia os juristas nasceu da iniciativa do então presidente do STF, Nelson Jobim, encampada pelo então presidente do Senado, Renan Calheiros.
Estamos perdidos.





